Dois Pesos, artigo da Maria Rita Kehl para o Estadão

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Fortes ventos críticos têm agitado o território da arte, desde o início da década de 1990. Com diferentes estratégias, das mais panfletárias e distantes da arte às mais contundentemente estéticas, tal movimentação dos ares do tempo tem, como um de seus principais alvos, a política que rege os processos de subjetivação – especialmente o lugar do outro e o destino da força de criação – própria do capitalismo financeiro que se instalou no planeta a partir do final dos anos 1970. O enfrentamento deste campo problemático impõe a convocação de um olhar transdisciplinar, já que estão aí imbricadas inúmeras camadas da realidade, no plano tanto macropolítico (fatos e modos de vida em sua exterioridade formal, sociológica), quanto micropolítico (forças que agitam a realidade, dissolvendo suas formas e engendrando outras, num processo que envolve o desejo e a subjetividade).
No Brasil, curiosamente este debate só se esboça a partir da virada do século, com uma parcela da nova geração de artistas que começa a ter expressão pública naquele momento, organizando-se freqüentemente nos assim chamados “coletivos”. Mais recente ainda, é a articulação do movimento local com a discussão levada há muito mais tempo fora do país. Hoje, este tipo de temática começa inclusive a ser incorporado ao cenário institucional brasileiro, na esteira do que vem ocorrendo fora do país, onde este movimento tem se transformado em “tendência” no circuito oficial. Tal incorporação, como veremos, diz respeito ao lugar que ocupa a arte nas estratégias do capitalismo financeiro.
Algumas perguntas se colocam diante da emergência deste tipo de temática no território da arte: o que questões como essas vem fazer aí? Porque elas tem sido cada vez mais recorrentes nas práticas artísticas? E no Brasil, porque elas só aparecem agora? E qual o interesse das instituições em incorporá-las? Vou esboçar, aqui, algumas vias de prospecção micropolítica, esperando que elas possam contribuir para o enfrentamento destas perguntas.
Antes de partir para o traçado desta cartografia cabe lembrar que o surgimento de uma questão se dá sempre a partir de problemas que se apresentam num dado contexto, tal como atravessam nossos corpos, provocando uma crise de nossas referências. É o mal-estar da crise que desencadeia o trabalho do pensamento – processo de criação que pode ser expresso sob forma teórico-verbal, mas também plástica, musical, cinematográfica, etc. ou simplesmente existencial. Seja qual for o canal de expressão, pensamos/criamos porque algo de nossas vidas nos força a fazê-lo para dar conta daquilo que está pedindo passagem em nosso dia a dia – nada a ver com a noção de “tendência”, própria da lógica midiática e seu princípio mercadológico. Se entendermos desta perspectiva para que serve pensar, a insistência neste tipo de temática nos indica que a política de subjetivação, de relação com o outro e de criação cultural está em crise e que, com certeza, vem se operando uma mutação nestes campos. A especificidade da arte enquanto modo de expressão e, portanto, de produção de linguagem e de pensamento é a invenção de possíveis – estes ganham corpo e se apresentam ao vivo na obra. Daí o poder de contágio e de transformação de que é portadora a ação artística. É o mundo que está em obra por meio desta ação. Não há então porque estranhar que a arte se indague sobre o presente e participe das mudanças que se operam na atualidade.

Suely Rolnik é psicoterapeuta, crítica cultural, professora e integrante do Núcleo de Estudos da Subjetividade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo além de professora convidada do Programa de Estudos Indepentendes do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MacBa). Nasceu em São Paulo. Suas pesquisas e trabalhos acadêmicos são dedicados às políticas de subjetivação através de uma perspectiva transdisciplinar (após os anos 1990, além de refletir sobre a arte contemporânea e sua interface com a política e a clínica terapêutica. Foi orientanda de Marilena Chauí em sua tese de doutoramento. Atualmente é professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, coordenadora e participante do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica desta instituição

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Dois Pesos, drugs artigo da Maria Rita Kehl para o Estadão sobre o bolsa famiia e a elite brasilera. Com comentarios de Suely Rolnik e  Felipe Ribeiro.

São Paulo, page 7 de outubro de 2010
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Vale a pena ler o excelente e corajoso texto que Maria Rita Khel publicou em sua coluna no Estadão na véspera do primeiro turno (segue abaixo). Para os que não sabem, a publicação deste texto lhe valeu sua demissão do jornal. A censura ao exercício do pensamento que representa sua demissão (do tipo velhos métodos, não tão longínquos quanto gostaríamos), teve como objeto o simples fato de uma jornalista (diga-se de passagem, de alta respeitabilidade, também como intelectual e psicanalista) ter ousado expressar uma mínima parcela do que todos nós temos obrigação de pensar, face à situação perigosamente perversa que vem se apresentando nestas eleições.

Não podemos bobear de agora até o segundo turno (pelo menos). Estejamos alertas aos estragos provocados pelo monopólio da informação em nosso país (o tal PIG: partido da imprensa golpista), que expressa os interesses de apenas uma parcela mínima da população, profundamente bichada por uma irresponsabilidade e uma ignorância seculares. Um monopólio que convoca o que temos de mais reativo: a memória colonial e escravocrata inscrita em nossos corpos de classe média e elite brasileiras, amputada de sua dimensão de vida pública, intoxicada de preconceitos de classe e de raça, etc., etc. Sintomas de um narcisismo ancestral, que se aterroriza face à desestabilização de nossos contornos, que a pulsação da alteridade promove necessariamente em nossa subjetividade; um terror do qual temos a ilusão de nos proteger, ao projetá-lo sobre nossos (não tão) outros, com nojo, ódio e desprezo (mesm o quando, no melhor dos casos, este sentimento se transveste da inofensiva e estéril bondade politicamente correta). São estes microfascismos que estão subindo à superfície midiática sem disfarce, sem o menor pudor e cada vez mais violentamente. O buraco de onde emergem estas forças reativas está bem mais embaixo do que o simples ódio ao PT ou à Dilma. Este é apenas sua atualização mais explícita no momento. E é isto o que nos deixa perplexos e, sobretudo, nos assusta.
Ativemos nosso senso de responsabilidade na construção da realidade (que nada mais é que nossa responsabilidade perante a vida), senso tão debilitado na história que nos constitui. Não podemos responsabilizar um candidato ou um partido pela corrupção que certos “elementos” do mesmo possam ter cometido, senão teríamos que responsabilizar todos aqueles que participam ou participaram do Estado brasileiro, desde a fundação da República (equívoco que funda a triste opinião, bastante comum em nosso país, de que todos os políticos são igualmente corruptos e oportunistas, e que a política não tem outro sentido, senão o de servir os interesses desta corja). É ridículo cairmos neste argumento da mídia, que explora a despolitização doentia de nosso país. Tampouco podemos decidir nosso voto em função de nossa simpatia ou antipatia por este ou aquele candidato, mas sim em função de n ossa maior ou menor identificação com um projeto político e de nosso desejo de que este projeto se imponha na condução de nosso destino, a cada momento que nos é dada a possibilidade de escolha.
Não estou me referindo a projeto político no sentido de um puro blábláblá retórico e/ou ideológico, mas daquilo que, de fato, se traduz na ação de um partido, impulsionada pelo reconhecimento dos problemas reais de nosso país. Votarei na Dilma baseada naquilo que o governo regido pelo PT sob a presidência de Lula realizou neste 8 anos (segue, em anexo, uma lista mínima destas realizações, comparadas às do governo FHC, que circulou na internet antes do primeiro turno). Sabemos dos grandes avanços conquistados, seja por nossa própria participação direta ou indireta nas diferentes ações levadas nas áreas da educação, saúde, cultura, economia, etc., seja pela participação de amigos ou amigos de amigos (já que não temos quaisquer outros meios de informação). Foram muitas, mas muitas mesmo, as pessoas que vararam noites e mais noites, anos a fio, para fazer mover o mais que pudess em o estado de inércia patológica do pensamento no Brasil pós-ditadura, de modo a abrir espaços inéditos de exercício democrático, na reinvenção permanente de nossas existências individual e coletiva, em função do que a vida nos indica e nos exige, quando nos dispomos verdadeiramente a escutá-la.
Infelizmente, a grande maioria não tem acesso a estas informações, exatamente em razão do poder absoluto do tal PIG no Brasil (aliás, nesse aspecto, nosso país se distingue de quase todo o resto do planeta, a começar por nosso próprio continente). Muitos de nós nos angustiamos com esse monopólio descarado da informação que tem emporcalhado de microfascismos as páginas dos jornais e revistas e a tela das TVs, mas na hora H as forças reativas tendem a vencer em nós mesmos, talvez por nossa incapacidade de lidar com o que nos causa tamanho desconforto com a situação atual, um desconforto que, inclusive, traz à tona a memória do trauma da ditadura, que até hoje não conseguimos sequer começar a elaborar. É patético, por exemplo, deixarmos passar a operação sinistra do pior de nossas elites, via mídia, que transforma a resistência à ditadura em coisa de vagabundos, bandidos e assass inos (o que é mais espantoso ainda, quando esse tipo de argumento é usado para a campanha eleitoral de um candidato que tem um “passado de esquerda” e o reivindica como parte de seu show). Morro de vergonha.
Espero que se multipliquem, cada vez mais, as vozes que ousam manifestar-se contra esta situação, como vem ocorrendo pelo menos via internet, esta zona franca que escapa por todos os lados ao confinamento imposto pelo PIG.
Abs,
Suely Rolnik



Pessoal,

Temos assistido, nos últimos tempos, a alergia dos grandes jornais a qualquer discussão reflexiva sobre seus procedimentos, autoridade e interesses. O que o governo propõe ser uma discussão pública, é taxado nas manchetes histericamente garrafais de tentativa de ditadura, e mesmo iniciativas do governo em pesquisar modelos adotados em países europeus viram manchete de dinheiro jogado fora (vide O Globo de 08.10.2010.).

Pois uma destas corporações que dizem ter sua liberdade de expressão ameaçada, o jornal O ESTADO DE SAO PAULO, demitiu semana passada a colunista do Caderno 2, psicanalista e influente pensadora Maria Rita Kehl por escrever um artigo
em que acha digno o Estadão deixar claro sua posição nas eleições 2010, como pró-serra. O artigo, favorável ao Bolsa-família,  questiona além de tudo a posição da “elite” que desqualifica os votos das classes D e E.

com indignação e vergonha da mídia que lemos,
Felipe R.

Dois pesos…
02 de outubro de 2010.

Maria Rita Kehl – O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

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